
Cumprir-se
Miolo – substantivo masculino. A parte mais interior ou central de algo = âmago, cerne.
Dentro da estrutura do boneco do boi não era vista, mas era eu quem fazia o boi brincar e dançar. Era o meu corpo que cumpria a promessa daquela figura? O boi me cumpria, eu cumpria o boi ou ambos nos cumpríamos?
Essa é a pergunta que abre esta exposição: será que tudo o que existe carrega uma promessa interna? Cumprir-se é realizar essa promessa? O barro promete a cerâmica? O aço promete a escultura? A orquídea promete a flor? Eu, que fui miolo de boi, arrisco que nada se cumpre sozinho, é preciso algo que transforme.
Atravessei estados, rios, suportes e linguagens artísticas. E cada travessia foi um passo nesse processo contínuo, um movimento sem fim de cumprir-me. Não há ponto de chegada. Há apenas o gesto de seguir me cumprindo, a cada obra, a cada lugar, em cada encontro.
As obras aqui reunidas nasceram das muitas travessias que me formam. O boi, meu próprio corpo, Recife, Piracicaba, rios que me atravessaram como atravessam a terra. Cada peça aqui é território subjetivo de repouso e pertencimento. Um espaço não para me fixar e, sim, onde o cotidiano se revela extraordinário nos pequenos gestos, na transformação dos materiais, nos rastros de corpo bicho-gente. É nesse campo, entre o ordinário e o extraordinário, a realidade e a magia, que encontro sentido para criar.
O que desejo provocar é uma experiência de presença. Busco impactar as pessoas da mesma forma que sou impactada pelo cotidiano extraordinário: pela enormidade do numinoso que se manifesta em gestos simples, em materiais frágeis, em cruzamentos inesperados Que cada visitante, ao atravessar este percurso, se questione acerca de sua própria promessa interna. Cumprir-se não é um destino. É um fluxo contínuo como o dos rios ou como o fogo que queima em si mesmo.
O convite é para que você atravessar, sentir e se perguntar, O que acontece quando alguém decide cumprir-se?
Carolina Moya (São Paulo).
Artista multilinguagens e pesquisadora. Sua trajetória tem como determinante os deslocamentos entre São Paulo (capital), Piracicaba, Olinda, Recife e Florianópolis territórios que atravessam e informam diretamente sua pesquisa artística.
Formada em Comunicação das Artes do Corpo (PUC-SP) e licenciada em Artes Visuais (Instituto Claretiano) e mestra em Artes Visuais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Carolina desenvolve, há mais de duas décadas, uma investigação autoral que articula performance, dança, artes visuais, instalação e audiovisual, com forte ênfase no corpo, na materialidade e nos gestos manuais. Sua pesquisa dialoga com práticas das culturas populares brasileiras e com o flamenco, investigados de forma continuada a partir de uma perspectiva ética, decolonial e contemporânea.
Sua produção aborda temas como território, memória, travessias, alteridade e pertencimento, compreendendo o deslocamento como condição estética, política e poética. Trabalhando a partir da condição de quem está em trânsito, de quem não se ancora plenamente em um lugar, mas constrói vínculo na escuta, no tempo e na prática. O deslocamento não é apenas geográfico, mas também corporal, cultural e simbólico entendendo a identidade, portanto, como algo sempre movente, nunca fixo e estanque.
Entre seus trabalhos de destaque estão a trilogia Poética das Travessias, composta por Veredas (2019), Eu Não Sou Daqui (2022) e Arado-Aboio-Auto (2024).
Apresentou seus trabalhos em importantes espaços culturais como Itaú Cultural, SESC, CRD – Centro de Referência da Dança de São Paulo, Centro Cultural Banco do Nordeste e festivais e circuitos independentes no interior, no Nordeste do Brasil e América Latina. Atualmente, sua pesquisa se aprofunda na criação de obras itinerantes, site-specific e ações de circulação em territórios não hegemônicos, articulando arte contemporânea, escuta territorial e práticas de acesso e democratização cultural.
No domingo (27/09) no Espaço Pedra Saraiva de Cultura, a partir das 14:30, acontece a abertura da exposição “CUMPRIR-SE” , não como um lugar de chegada mas como um território em construção.
Nesta exposição, Carolina Moya, artista multilinguagens, reúne cerâmica, xilogravura, esculturas em aço, ferro e cerâmica em uma travessia entre matéria e presença. Obras que carregam em si o gesto de transformação e compõe presenças.
14:30h — Abertura da exposição
15h — Performance – Palavra Queima
17h — Dança – “Eu Não Sou Daqui” (cena)
18h — Música – Canções e toadas com Carolina Moya e Chico Saraiva.
Às 15h, Carolina apresenta “Palavra Queima”, uma performance única em que retorna a letras de músicas e poemas escritos durante sua adolescência. Palavras de outro tempo voltam à cena — não como lembrança, mas como matéria viva, confrontando a artista que escreveu com a mulher que hoje as pronuncia.
Às 17h, o corpo entra em cena com um trecho do solo de dança “Eu Não Sou Daqui”, em que Carolina transita por diferentes técnicas de dança que não lhe pertencem originalmente, flamenco e danças populares brasileiras, ela constrói sua própria corporeidade.
Às 18h, a exposição se abre para a música, com canções interpretadas por Carolina Moya (dança – sapateado flamenco, palma e voz) e Chico Saraiva (violão, voz e viola machete).
O que acontece quando uma pessoa decide cumprir aquilo que é?
Esperamos você! 🌟
Rua Bico De Lacre 223 – Cacupé, Florianópolis