Bio

“O indivíduo troca informação com estes vários outros, que tem dentro de si. A gente tem um roteiro frágil do que a gente é. Talvez a gente supere a loucura colocando todos estes outros que nos pertencem em contato.” Amálio Pinheiro.

Carolina Moya (São Paulo, 1985) é artista multilinguagens e pesquisadora. Sua trajetória tem como determinante os deslocamentos entre São Paulo (capital), Piracicaba, Olinda e Recife e Florianópolis territórios que atravessam e informam diretamente sua pesquisa artística.

Formada em Comunicação das Artes do Corpo (PUC-SP) e licenciada em Artes Visuais (Claretiano) e mestra em Artes Visuais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Carolina desenvolve, há mais de duas décadas, uma investigação autoral que articula performance, dança, artes visuais, instalação e audiovisual, com forte ênfase no corpo, na materialidade e nos gestos manuais. Sua pesquisa dialoga com práticas das culturas populares brasileiras e com o flamenco, investigados de forma continuada a partir de uma perspectiva ética, decolonial e contemporânea.

Sua produção aborda temas como território, memória, travessias, alteridade e pertencimento, compreendendo o deslocamento como condição estética, política e poética. Entre seus trabalhos de destaque estão a trilogia Poética das Travessias, composta por Veredas (2019), Eu Não Sou Daqui (2022) e Arado-Aboio-Auto (2024).

Apresentou seus trabalhos em importantes espaços culturais como Itaú Cultural, SESC, CRD – Centro de Referência da Dança de São Paulo, Centro Cultural Banco do Nordeste e festivais e circuitos independentes no interior e no Nordeste do Brasil. Atualmente, sua pesquisa se aprofunda na criação de obras itinerantes, site-specific e ações de circulação em territórios não hegemônicos, articulando arte contemporânea, escuta territorial e práticas de acesso e democratização cultural.

O que move seu trabalho é a busca por criar lugares subjetivos de repouso e pertencimento em um mundo marcado pelo deslocamento constante. Interessa-me o cotidiano quando ele se revela extraordinário, nos pequenos gestos, nas matérias gastas pelo uso, nos ritmos do corpo e do território. É nesse campo, entre o ordinário e o mágico, que encontra sentido para criar.

Sua pesquisa atravessa temas como território, memória, travessias, alteridade e uma ideia de identidade sempre movente, nunca fixa. Trabalha a partir da condição de quem está em trânsito, de quem não se ancora plenamente em um lugar, mas constrói pertencimento na escuta, no tempo e na prática. O deslocamento, para ela, não é apenas geográfico, mas também corporal, cultural e simbólico.

Seus processos artísticos são multilinguagens e se organizam a partir do corpo como eixo central. Utiliza performance, dança, cerâmica, audiovisual, instalação, objetos e gestos manuais como extensões de uma mesma investigação. Interessa-se por materiais que carregam memória, terra, tecido, ferramentas, resíduos, vestígios e por práticas repetitivas e manuais que instauram um tempo outro, mais lento e atento. A pesquisa territorial, a escuta dos lugares e das pessoas, e a adaptação das obras aos contextos onde se instalam fazem parte intrínseca do meu modo de criar.

O gesto manual, a gambiarra, o reaproveitamento e a transformação da matéria são estratégias poéticas e éticas. Eles permitem trabalhar com o que já existe, com aquilo que foi tocado, usado, atravessado, criando obras que se constroem em relação direta com o espaço, o público e o momento em que acontecem. Nada é completamente fixo: as obras se deslocam, se reorganizam e se deixam afetar.

O que deseja provocar no encontro com o público é uma experiência de presença. Busca impactar as pessoas da mesma forma que é impactada pelo cotidiano extraordinário: pela enormidade do numinoso que se manifesta em gestos simples, em materiais frágeis, em encontros inesperados. Seu trabalho propõe um espaço sensível onde seja possível suspender o ruído do mundo e encontrar, ainda que por instantes, um frágil lugar de repouso, reconhecimento e pertencimento.

Criar é uma forma de habitar o mundo com atenção, de sustentar perguntas sem respostas definitivas e de construir, coletivamente, pequenos territórios de sentido.